Caminhos de leitura
A ruptura que evita a traição de si
Durante muito tempo, aprendi a associar traição a quebrar uma promessa, abandonar alguém ou desrespeitar uma relação. Mas há uma outra forma, mais silenciosa, de traição: permanecer onde já não se pode estar.
Permanecer em um papel que nos reduz. Manter uma imagem que os outros fizeram de nós. Repetir uma expectativa que já não conversa com quem somos. Às vezes, isso parece lealdade. Às vezes, é só medo de desagradar, de decepcionar ou de perder pertencimento.
Romper não é um gesto simples. Há vínculos, afetos, histórias e gratidão envolvidos. Nem toda ruptura é necessária; nem toda permanência é submissão. Mas existe um momento em que seguir obedecendo ao que foi esperado de nós se torna uma forma de desobediência a nós mesmos.
Olhar para trás ajuda a distinguir essas coisas. Ajuda a reconhecer o que recebemos, o que nos sustentou e também o que passou a nos limitar.
Eu não preciso negar a minha história para escolher outro caminho. Posso agradecer o que veio antes e, ainda assim, dizer: daqui para frente, isso não segue comigo.
Talvez seja essa a ruptura mais difícil: aquela que não nasce do desprezo pelo passado, mas do compromisso de não se abandonar no presente.
Este ensaio continua uma conversa aberta em Antes de Mim.
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