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Caminhos de leitura

O esforço de ser inteiro

Há uma parte da vida em que a gente aprende a falar a língua do mundo.

Aprende a entregar, a performar, a parecer seguro, a dominar os códigos que fazem alguém ser reconhecido como competente. Para muita gente, esse aprendizado é só uma etapa. Para outras, sobretudo quando o ambiente já nos lê como exceção antes de nos conhecer, ele vira condição de sobrevivência.

Antes de me permitir ser inteiro, eu precisei provar que dominava a técnica. Que eu conhecia as regras. Que eu conseguia jogar o jogo. Não porque isso fosse tudo o que eu queria ser, mas porque havia uma desconfiança anterior à minha presença.

O problema é que competência não responde à pergunta sobre quem se é. Ela pode abrir portas, trazer reconhecimento, construir uma trajetória. Mas não substitui a experiência de não precisar deixar partes de si do lado de fora para permanecer em um lugar.

Ser inteiro não é abandonar aquilo que construí. É parar de tratar como erro as partes de mim que não cabiam na versão mais aceitável, mais eficiente ou mais facilmente compreendida.

Talvez a coragem não seja chegar a um lugar sem medo. Talvez seja perceber que, depois de tanto esforço para caber, existe uma vida que começa quando eu paro de me diminuir para ser aceito.

Este ensaio continua uma conversa aberta em Antes de Mim.

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